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‘É quase um outro esporte, porque tem características muito próprias. Às vezes, é preciso desapegar de algumas referências da corrida de rua’, explica o professor de Educação Física Roberto Dum, que está no ramo há mais de 20 anos

A placa no portão da Floresta da Tijuca, no Alto da Boa Vista, indicava o caminho: 2,5 quilômetros de trilha até o Mirante da Freira, primeiro destino do grupo de corredores da assessoria esportiva do professor de Educação Física Roberto Dum. De lá, mais 1,7 quilômetros até o Morro do Queimado, onde começaria a descida para o fim da atividade. Todo domingo é dia de trail running para os alunos, corrida praticada no meio da natureza e que vem ganhando cada vez mais adeptos entre o público habituado a circuitos urbanos. “É quase um outro esporte, porque tem características muito próprias. Às vezes, é preciso desapegar de algumas referências da corrida de rua”, explica Dum, que está no ramo há mais de 20 anos. “Haverá sempre uma surpresa durante o percurso pela falta de padronização do terreno e até pelo clima. O caminho não será o mesmo com chuva e com sol”, emenda.

Influenciadora digital do universo fitness, Julia Giannella conheceu a trail run no início do ano passado e acabou adotando a atividade como prática semanal. “Sou apaixonada, ainda mais pelo contato com a natureza. Quando tem cachoeira ao longo da trilha, tomar um banho é sempre uma recompensa depois de tanto esforço no treino”, conta a paulista de 21 anos, que já participou de um campeonato da modalidade, em Teresópolis. “Estava chovendo, com o terreno bem lamacento, fui devagar. Teve gente que terminou a prova em 20 minutos. Finalizei em uma hora.”

Dividida entre quatro categorias de distância (de 6 até 60 quilômetros), a competição foi organizada pela World Trail Races (WTR), liga de esportes ao ar livre fundada em 2014. Neste ano, a companhia fará oito provas em cidades do Rio, São Paulo e Minas Gerais. De acordo com Gabriela Corrêa, head de marca da WTR, o número de atletas nas disputadas de trail running cresceu 20% de 2023 para 2024. “Fazemos questão de levar toda a informação que o atleta precisa para realizar as provas. Temos uma equipe técnica que estuda os trajetos in loco junto com as autoridades, além de cumprirmos um padrão de sinalização e contratarmos socorristas e brigadistas, especializados em montanhas, para atuar em todo o percurso”, explica Gabriela.

A trail running é uma atividade democrática, na visão do professor de Educação Física Roberto Dum. “A pessoa não precisa necessariamente ter um histórico na corrida de rua”, garante o profissional. Mas, de fato, todo cuidado é pouco para quem decide se aventurar a acelerar os passos numa trilha, principalmente em trechos de difícil acesso e com subidas e descidas íngremes e escorregadias, sem falar nos possíveis acidentes com a fauna local. Usar um tênis próprio para encarar o percurso, com travas específicas para dar estabilidade; levar celular para facilitar a comunicação, e estar acompanhado de outros atletas para receber ajuda em casos de lesão e emergências são medidas básicas. “É sempre bom ir com alguém que conheça o caminho”, pontua Dum.

A insegurança de mulheres em praticar o esporte sozinhas foi justamente o que motivou a jornalista Tamiris Monteiro e a agente de viagens Ana Pagiossi, ambas de São Paulo, a criar, em 2019, o Trail Girls, coletivo feminino de corrida em trilhas. “Se correr na rua é perigoso para mulheres, imagina no meio da natureza, sem ninguém”, pondera Tamiris, adepta do esporte desde 2016. “Havia poucas pessoas nesse movimento quando começamos, então queríamos também conectar mulheres. Na época, só tinha amigos homens que faziam, mas não era sempre que eles me chamavam, talvez por uma impressão de que eu não iria acompanhar o ritmo. Mas segui firme e forte, junto com outras meninas de todo o Brasil.”

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Por Yasmin Setubal

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